Dia da criatividade: contos

pen-idea-bulb-paper

Para não deixar passar em branco o Dia da Criatividade, a Publivar/On desafiou a equipe a criar contos com cinco personagens: um homem, uma mulher, um cachorro, um cacto e um sorveteiro. Cada história ganhou um olhar singular e único tanto na linguagem como na narrativa. Confere aí o que os nossos colegas produziram:

Duas horas da manhã, Tom está deitado no sofá da sala, assistindo algum programa que até agora não reconheceu, enquanto sua mulher, Elis,  dorme na cama. Ela está grávida. De repente, uma vontade incontrolável toma conta de Tom. “Elis! Elis! Você está dormindo?”, fala ele enquanto invade o quarto. “O que foi?”, pergunta Elis, ainda abrindo os olhos. “Estou com desejo”, responde Tom. “Como assim desejo?”. “Desejo, ué. Deve ser a gravidez”. “Mas sou eu quem está grávida”. “De um filho meu. Isso deve interferir no meu psicológico ou seja lá o que controla os desejos em uma pessoa”. Elis senta na cama, olha para o relógio. “São duas da manhã, Tom. O que você quer?”. “Você não tem um ex-namorado sorveteiro?”. “O Lucas?”. “Sim, esse. Ele ainda é apaixonado por você?”. “Talvez, mas eu não vou ligar pra ele a essa hora”. “Mas o sorvete dele é o melhor da cidade, sem falar que apenas ele tem o sabor que eu desejo”. “E qual é?”. “Menta com mescalina”. “Eu sabia! É só saudade daquele cacto que você trouxe do México”. “Eu ainda não superei, ok?”. “Já fazem seis meses, Tom. O Marvin não teve culpa”. “Aquele teu cachorro idiota profanou meu cacto. Você sabe que só aquele chá me mantinha com os pés no chão”. “Eu não vou ligar pro Lucas”. “Tudo bem. Eu procuro alguma coisa na cozinha”. Tom está saindo do quarto, quando Elis o chama, “Ok, imbecil. Agora eu estou com desejo”. “Sorvete de menta com mescalina?”. “Não, cachorro-quente. Você compra um pra mim?”. “Você sabe muito bem que não chego perto de pratos que tem nome de animais”. “Você vai ser um grande pai, Tom”.

Diego Marques


Chegando em Hogwarts, Sophie estava se sentindo perdida. Ela era trouxa e tinha tido pouco contato com os conhecimentos de bruxaria. Ela sempre muito distraída, acabou esbarrando em um cacto que começou a conversar com ela e vendo a expressão solitária no olhar da menina. Ele contou a ela sobre o Berlin, um cachorro que aparecia de tempos em tempos quando um coração puro e trouxa entrava na escola, mas havia um problema que ela não sabia. Ele era um menino amaldiçoado e apenas um amor verdadeiro o faria voltar à forma humana. Ela o adotou e Berlin sorria pra ela como se já se conhecessem de outra vida. Passaram-se meses até que a tão esperada noite de Lua Cheia chegou e o Berlin voltou a ser o garoto. E eles se reconheceram de outra história, quando ele era um humilde sorveteiro e ela, uma dona de casa. Outra encarnação para construir um novo capítulo.

Isabelle Capp (pseudônimo)


O som das árvores tremulando lá fora e as gotículas da chuva escorrendo na janela congelaram aquele momento de uma vida inteira. O vazio no coração daquele casal que tinha perdido o seu filho: Bauhaus. Os passos se tornaram rápidos e sólidos ao tocarem o chão. E lá estavam eles ao lado do sorveteiro em busca de uma resposta. Dúvidas. Incertezas. Histórias contadas. Mentes atormentadas. O arbusto ao lado do cacto criou vida e recriou uma realidade com um sorriso tímido indo em direção a eles: o cão fujão. O céu abriu e o tempo parou para, sutilmente, transformar o pesadelo em sonho novamente.

Juliane Guez


Um homem entrou em uma loja na estrada a caminho de Tramandaí. Pediu por um cacto. Era o presente perfeito para sua prima. A atendente, uma jovem de cabelos ruivos, disse que os únicos cactos que possuía não estavam a venda, pois foram dados por um índio xamã que lhe fez jurar jamais se desfazer da planta, a menos que fosse em uma troca que envolvesse o LP Transformer, do Lou Reed. Então o homem viu um quadro, nele havia uma pintura de um cachorro fazendo um pedido a um sorveteiro. Um balão de fala saía da boca do cachorro: “Uma bola de flocos e outra de chocolate amargo, por favor”. Então o homem comprou o quadro e foi embora. Fim.

Tom Kleinman (pseudônimo)


Na pequena cidade chamada de Escaldapés, numa tarde ensurdecedora, tomada pela exaustão e mormaço de um verão abrasador, um casal de namorados decide passear pela “Praça dos Dromedários”, onde o cenário é rodeado por cactos de todas as espécimes planetárias possíveis, bancos de pedra e uma que outra flor sobrevivente perdida. Francisquinha, a mulher, estava sedenta e já imaginava algo refrescante para acalmar sua seca goela. Enquanto, Theo (Theobaldo) segurava a mão da doce amada e quase derretida para que não desmaiasse com tamanha quentura. Francisquinha só não resvalou de inação e moleza por levar um grande susto do latido do Siborg, o vira-latas do enfadonho açougueiro Josefredo, que corria atrás de um bichano esquelético, porém, matreiro e perspicaz.

Theo ficou tão nervoso com a situação patética de seu xodó que ao avistar um sorveteiro, ao longe, com sua carrocinha recheada de gelados, água e tals, pensou ser uma miragem. Tanto pensou, que deixou a carrocinha passar e nem matutou em chamar. “Putz”!

Pobre Theo! Quanto à Francisquinha, mais tarde, acabou se derretendo, mas pelo sorveteiro, porque calidez não fazia mais parte de seu repertório de vida, somente frescura, aragem e brisa.

Débora Bittencourt


Como as surpresas após os créditos nos filmes, nossa equipe criou algo fora do que foi esperado também, dá uma olhada:

Inversão

De cima do telhado, vislumbro um mundo totalmente antagônico do que vejo daqui debaixo, Eu, um tanto daltônico,  me perco na mixórdia de cores de um quadro no qual me desvelo em especular, mas tampouco me encaixo.

Idem

Idem é o que digo quando na preguiça de meu vocabulário vadio, acabo não encontrando palavra alguma para definir aquela uma e por pressa fica apenas o rastro de um significado vazio.

Débora Bittencourt